O presente:

o que fazer quando alguém te ofende

(e o que significa quando ofendemos alguém)

     Durante muito tempo na minha vida não consegui estabelecer uma ligação entre esse "julgamento" que os preceitos religiosos nos dizem para não praticar, e aquilo que de fato experimentava na minha vida cotidiana e que me impactava diretamente. E principalmente: não conseguia absorver o quão danosa era de fato essa energia do julgamento para a nossa essência humana.

Julgar é apontar o dedo para o outro; é atacar; é apontar algo que você, no seu ponto de vista, julga errado, corrompido ou ultrapassado, fazendo-o sem compaixão, empatia ou qualquer intenção de auxílio real ou desejo de transformação àquele (ou àquilo) que te desagrada.

     Na espiritualidade entendemos que o ser humano possui dentro de si duas naturezas distintas, a tal dualidade: sombra e luz, ego e Essência, vícios e virtudes, e que devemos mantê-las em harmonia. Todos temos um ego - que é a nossa personalidade pequena, aquela que tem uma história aqui no mundo físico e está apegada aos valores temporários da vida material -, e temos o Eu Maior, Self, Essência - que diz sobre aquela parte divina que habita em nós, imutável, transcendental, feita à imagem e semelhança de Deus, que é alinhada com os valores elevados de compaixão, amor, união, gratidão… O julgamento é do ego.

     O ego, tão útil quando pode ser à realização das nossas missões aqui, é também aquela parte nossa reativa, da nossa criança ferida, que no fundo está amedrontada, insegura, separada e, por essa razão, se compara, se sente inferior ou superior, não conseguindo entender que tudo e todos na verdade são células, átomos, partes iguais do mesmo todo. 

     O ego que julga, no fundo, se sente ameaçado por aquilo que julga. Julgamento é uma atitude inconsciente, de projeção de suas próprias feridas e medos não conhecidos (sombras) e, portanto, não curados. É natural, do ponto de vista desse ego, que queiramos esconder as partes nossas que exponham a nossa vulnerabilidade, o nosso "ponto fraco", as nossas imperfeições. Afinal, quem quer ser esse personagem "imperfeito", não é? Tomar esse lugar de bode expiatório no palco da vida? Ninguém certamente em "sã consciência" quereria tal função. Não é? Logo, mais fácil, mais "lógico", sacar a arma do julgamento do outro, desviando de si mesmo a atenção daqueles pontos doloridos, obscuros, vulneráveis que habitam em você também e que tão resistentemente nos negamos a olhar.

     Julgar é, em suma, projetar sobre o outro aquilo que em si mesmo você não aceita ou não integrou. Pois lembrem-se: a dualidade faz parte da nossa natureza, é um mar no qual devemos aprender a navegar; ninguém é 100% bom, nem 100% mau. Até mesmo os vilões possuem aspectos que nos induzem à compaixão e heróis sem defeitos não geram empatia; todos temos partes a serem trabalhadas; todos somos personagens com um arco narrativo, com uma jornada evolutiva a percorrer, da qual sairemos transformados ao fim, para então partirmos para a próxima aventura. 

     Acredito que o primeiro passo para abolirmos a questão do julgamento é entendermos que todos fomos feridos, em maior ou menor grau. A sua dor é a minha também. Fomos feridos pela inconsciência do meio em que vivemos e que pouco a pouco foi nos desviando dessa nossa natureza amorosa. Nosso copo está cheio; cheio de desamor, de agressão, de violação. Lembre-se: aquilo que te inflama no outro e te impede de estender a mão com compaixão, é sinal que uma ferida semelhante ocupa espaço em você também. Somos iguais nesse ponto.

 

Quando, ao primeiro sinal de algo inflamado dentro de você, ao invés de levantar o dedo julgador, escolhermos trazer a consciência para essa parte nossa que almeja julgar, quando optarmos por abrir a janela interior da auto reflexão, então estaremos caminhando para a resolução do conflito, e não para a sua eterna perpetuação, que nada tem nos trazido de bom. 

    Julgar só nos leva a ferir mais; não é produtivo. Que tal apelar para a sua parte divina? Pedindo-lhe auxílio em sua elevada compreensão para que você possa transcender esse ciclo de julgamento, podendo assim integrar e curar as suas partes feridas? Trazendo amor e compaixão primeiro para você? Pois lembre-se: o maior beneficiário do amor e do perdão é aquele mesmo que ama e perdoa.

     Em outros casos, quando simplesmente deparar-se com pessoas que não estão no mesmo arco evolutivo que você, e que se recusam a olhar à parte que lhes cabe, lembre-se da história do presente que vou lhe contar:

Em minhas sucessivas frustrações que costumava levar à minha aula de yoga, lá nos idos anos 2010, 2011, lembro-me do tópico recorrente de me sentir injustiçada sobre a opinião que os outros no trabalho e na faculdade tinham sobre mim. Não me sentia vista em minha verdadeira natureza, nem compreendida ou aceita, e constantemente me via julgada por algo que não era. Minha sábia professora de yoga, Milena Dias, à época me contou sobre a história de um peregrino que foi pedir orientação a um monge porque estava sendo ofendido com frequência. O monge então lhe diria:

"O que acontece quando alguém te dá um presente e você não aceita? O pupilo então responde:

     - Ele fica com quem o ofertou? 

     - Exatamente! - respondeu o monge. - É assim também com a ofensa e o julgamento. Se ele não te cabe, não pegue o presente! Então ele não será seu, e sim de quem o ofendeu".

 

     Essa história é maravilhosa porque ela nos serve perfeitamente. Quantas vezes o julgamento não diz mais sobre quem julga, do que de quem é julgado? Quantas vezes o seu sofrimento em ser julgado não foi justamente por saber lá no fundo da sua essência que aquilo não era verdade, mas, no entanto, você carregou o presente consigo como se fosse? 

     Durante toda a minha juventude dos vinte anos, estive presa à concepção que os outros tinham sobre mim e durante muito tempo acabei, inconscientemente, me comportando à forma com que era julgada; rebatendo; desejando ser vista de outro modo; querendo que mudassem de opinião. Hoje, vejo, que me preocupei demasiado com as sombras (minhas e dos outros que me julgavam), ao invés de fortalecer a luz que sabia habitar em mim. E, assim, chorei por tão injustamente ninguém notar - mas será que não era porque eu mesma estava esquecendo de mostrá-la? 

     Jesus, dentro dos ensinamentos do livro "Um curso em milagres", diz algo semelhante sobre o julgamento: "é nosso dever não compactuar com qualquer percepção errônea que o outro venha a ter sobre você; inclusive as suas próprias". Com isso ele nos ensina que Deus nos vê em nossa verdadeira luz, enxerga o nosso amor potencial, ainda que nos recusemos em vê-lo. Quanto ao outro? O que podemos fazer se não nos querem enxergar, não é mesmo? Está além de nosso controle! Mas quanto à nós, ahhh, aí sim entramos num terreno onde é possível trabalhar! Transformar o que não agrada e emanar aquilo que temos de melhor. Essa é a bênção da liberdade!

Então, meu amor, que deste texto fiquem dois ensinamentos:

1: O ímpeto do julgamento é sinal que a ferida do outro encontra eco em você. Estamos todos nos mesmo barco, somos personagens em eterna evolução.

 

2: Quando se sentir injustamente julgado, não pegue o presente! Não carregue aquela energia com você. Ao invés, mostre a suas cores verdadeiras, aja em consonância com a parte mais bela que você sabe habitar em você! 

 

     Desde que seja com intenções amorosas no coração, não se preocupe com nada, não se esconda de ninguém, e nunca pegue um presente que não é seu! Ninguém, a não ser você, pode assegurar isso, ok?

Com amor para seus dias doces, 

Mary Sweet.